Olá pessoal, tudo Bem?
Encontrei na internet uma entrevista muito interessante.
A interação humana atravessada pela midiatização
Entrevista com o professor Muniz Sodré de Araújo, professor da Escola de Comunicação da UFRJ
Fonte: Revista IH Unisinos (29.09.2009)
IHU On-Line – O senhor afirma que “antes da midiatização da sociedade só Deus tinha o poder imediato, global e instantâneo”. Acredita que a mídia tenha tanta força assim, com capacidade para mudar profundamente a vida das pessoas e o rumo da sociedade?
Muniz Sodré – Afirmar o efeito SIG (simultaneidade, instantaneidade e globalidade) da mídia não implica, em princípio, afirmar a sua capacidade de mudança profunda da vida das pessoas ou do rumo da sociedade. Implica, sim, sustentar que a aceleração temporal, por intervenção tecnológica nas coordenadas do espaço-tempo, altera modos de percepção e práticas correntes na mídia tradicional, logo, altera comportamentos e atitu- des na esfera dos costumes, normalmente pauta- dos pela mídia. Isso significa que está se gerando uma nova ecologia simbólica, com consequências para a vida social.
IHU On-Line – O que caracteriza o ethos midiatizado?
Muniz Sodré – O ethos é a atmosfera afetiva (emoções, sentimentos, atitudes) em que se movi- menta uma determinada formação social. O ethos midiatizado caracteriza-se pela manifesta articulação dos meios de comunicação e informação com a vida social. Ou seja, os mecanismos de inculcação de conteúdos culturais e de formação das crenças são atravessados pelas tecnologias de in- teração ou contato. Passamos a acreditar naquilo que se mostra no espelho industrial.
IHU On-Line – Em que medida podemos en- tender a midiatização como fruto da sociedade da informação?
Muniz Sodré – “Sociedade da informação” é menos do que um conceito, é mais um slogan dos arautos (empresas, deslumbrados etc.) da euforia tecnológica. Toda e qualquer sociedade sempre teve os seus meios de informação e de estocagem de conhecimentos. O que acontece agora é a capacidade exponencial de processamento e velocidade de circulação de dados. Midiatização, por sua vez, é a articulação do funcionamento das instituições sociais com a mídia. Isso, sim, é novo. É fruto das transformações nos modos de urbanização e no advento das tecnologias da informação e da comunicação, vetorizadas pelo mercado capitalista.
IHU On-Line – O que podemos entender por “tecnointeração” e como ela ajuda a compor o fenômeno da midiatização?
Muniz Sodré – Em função das transformações urbanísticas (novos conceitos de cidade, novas formas de habitação etc.), os indivíduos tendem a se relacionar à distância, compondo o que já se chamou de “telerrealidade” social. A interação passa a depender dos dispositivos de mídia (inter- net, rádio, televisão etc.), portanto, é visceralmen- te atravessada pelo fenômeno da midiatização.
IHU On-Line – Quais as consequências sociais da “telerrealização das relações humanas”?
Muniz Sodré – A principal é a redefinição dos modos de constituição da comunidade humana. A corporeidade – logo, as tensões e os conflitos decorrentes da proximidade no corpo coletivo – tende a ser neutralizada pelos dispositivos tecnológicos. Não há aí nenhuma catástrofe, tão só um novo modo de instalação do corpo humano na rede social, agora tecnologizada.
IHU On-Line – Como a midiatização e a tecnocultura impactam no modelo de leitura usado nos últimos séculos? O senhor pensa que a leitura em papel está em extinção?
Muniz Sodré – A questão do livro e da leitura ultrapassa hoje tanto a lógica financeirizada da pro- dução – responsável pela publicação em massa da perversão dos conteúdos livrescos – quanto às concepções de leitura ancoradas na centralidade simbólica do livro, que, no entanto, está dando lu- gar a formas múltiplas ou plurais de leitura. A leitura do futuro, que já é hoje, se define, para nós, como um processo de interação entre linguagens e culturas diversas, existentes não apenas nos livros, mas na casa e na rua, no trabalho e na política, possibilitando o exercício da palavra, dando voz às minorias, sem o que não há cidadania.
IHU On-Line – O senhor acredita que os avanços e as mudanças tecnológicas já che- garam a todas as partes do mundo, inclusi- ve aos países em desenvolvimento, onde muitos ainda vivem em situação de extrema pobreza e miséria? Há democracia e inclusão por igual nesse sentido?
Muniz Sodré – Não há democracia, nem inclusão digital por igual. No entanto, uma sociedade do conhecimento com viés instrutivo implica uma ligação visceral da cidadania com as novas formas públicas de cultura que, agora, deixam de centrali- zar-se no livro para irradiar-se por sons e pala- vras, graças às tecnologias da comunicação, a todo o espaço social. Quem está de fora dos novos modos de ler e escrever é tido como excluído do mundo do trabalho e da cultura. Daí a exigência histórica de que a escola, mais necessária para os pobres (já que os ricos fazem a sua integração quase que “naturalmente”, graças ao ambiente familiar e social), se redefina com base em um horizonte cultural mais interativo, incluindo jovens e adultos no exercício de interação social, constituído pelas tecnologias da informação e, consequentemente, pelas novas práticas de escri- ta e leitura.
IHU On-Line – Com o imediatismo da informação, o espaço de tempo para a reflexão sobre os fatos acabou. Quais as consequências disso para a formação da sociedade do futuro?
Muniz Sodré – A reflexão sobre os fatos deman- da uma temporalidade menos acelerada, ou seja, o “tempo adiado”, a que se refere Paul Virilio em vários de seus trabalhos. É o tempo necessário à distância entre sujeito e objeto, que permite a reflexão. E a reflexão é cada vez mais necessária à reinterpretação continuada da democracia. Vale, assim, reforçar a ideia de John Dewey,15 para quem um estado democrático em crise não sugere, como pensa a grande maioria, doses maiores de democracia formal, e sim uma reflexão centrada na ideia de democracia. O que há de especial nesta ênfase é que a democracia deixa de ser vinculada unicamente à política, já que esta última passaria a ser apenas uma das formas democráticas. Para Dewey, a democracia se encontra muito mais no fato e na experiência sociais do que na dimensão política: na medida em que transcende o Estado, configura-se como um modo de vida ou uma ideia/força. Neste sentido, a ideia de democracia está sempre destinada a ser revisitada, reinventada e reinterpretada.
Muniz Sodré – Afirmar o efeito SIG (simultaneidade, instantaneidade e globalidade) da mídia não implica, em princípio, afirmar a sua capacidade de mudança profunda da vida das pessoas ou do rumo da sociedade. Implica, sim, sustentar que a aceleração temporal, por intervenção tecnológica nas coordenadas do espaço-tempo, altera modos de percepção e práticas correntes na mídia tradicional, logo, altera comportamentos e atitu- des na esfera dos costumes, normalmente pauta- dos pela mídia. Isso significa que está se gerando uma nova ecologia simbólica, com consequências para a vida social.
IHU On-Line – O que caracteriza o ethos midiatizado?
Muniz Sodré – O ethos é a atmosfera afetiva (emoções, sentimentos, atitudes) em que se movi- menta uma determinada formação social. O ethos midiatizado caracteriza-se pela manifesta articulação dos meios de comunicação e informação com a vida social. Ou seja, os mecanismos de inculcação de conteúdos culturais e de formação das crenças são atravessados pelas tecnologias de in- teração ou contato. Passamos a acreditar naquilo que se mostra no espelho industrial.
IHU On-Line – Em que medida podemos en- tender a midiatização como fruto da sociedade da informação?
Muniz Sodré – “Sociedade da informação” é menos do que um conceito, é mais um slogan dos arautos (empresas, deslumbrados etc.) da euforia tecnológica. Toda e qualquer sociedade sempre teve os seus meios de informação e de estocagem de conhecimentos. O que acontece agora é a capacidade exponencial de processamento e velocidade de circulação de dados. Midiatização, por sua vez, é a articulação do funcionamento das instituições sociais com a mídia. Isso, sim, é novo. É fruto das transformações nos modos de urbanização e no advento das tecnologias da informação e da comunicação, vetorizadas pelo mercado capitalista.
IHU On-Line – O que podemos entender por “tecnointeração” e como ela ajuda a compor o fenômeno da midiatização?
Muniz Sodré – Em função das transformações urbanísticas (novos conceitos de cidade, novas formas de habitação etc.), os indivíduos tendem a se relacionar à distância, compondo o que já se chamou de “telerrealidade” social. A interação passa a depender dos dispositivos de mídia (inter- net, rádio, televisão etc.), portanto, é visceralmen- te atravessada pelo fenômeno da midiatização.
IHU On-Line – Quais as consequências sociais da “telerrealização das relações humanas”?
Muniz Sodré – A principal é a redefinição dos modos de constituição da comunidade humana. A corporeidade – logo, as tensões e os conflitos decorrentes da proximidade no corpo coletivo – tende a ser neutralizada pelos dispositivos tecnológicos. Não há aí nenhuma catástrofe, tão só um novo modo de instalação do corpo humano na rede social, agora tecnologizada.
IHU On-Line – Como a midiatização e a tecnocultura impactam no modelo de leitura usado nos últimos séculos? O senhor pensa que a leitura em papel está em extinção?
Muniz Sodré – A questão do livro e da leitura ultrapassa hoje tanto a lógica financeirizada da pro- dução – responsável pela publicação em massa da perversão dos conteúdos livrescos – quanto às concepções de leitura ancoradas na centralidade simbólica do livro, que, no entanto, está dando lu- gar a formas múltiplas ou plurais de leitura. A leitura do futuro, que já é hoje, se define, para nós, como um processo de interação entre linguagens e culturas diversas, existentes não apenas nos livros, mas na casa e na rua, no trabalho e na política, possibilitando o exercício da palavra, dando voz às minorias, sem o que não há cidadania.
IHU On-Line – O senhor acredita que os avanços e as mudanças tecnológicas já che- garam a todas as partes do mundo, inclusi- ve aos países em desenvolvimento, onde muitos ainda vivem em situação de extrema pobreza e miséria? Há democracia e inclusão por igual nesse sentido?
Muniz Sodré – Não há democracia, nem inclusão digital por igual. No entanto, uma sociedade do conhecimento com viés instrutivo implica uma ligação visceral da cidadania com as novas formas públicas de cultura que, agora, deixam de centrali- zar-se no livro para irradiar-se por sons e pala- vras, graças às tecnologias da comunicação, a todo o espaço social. Quem está de fora dos novos modos de ler e escrever é tido como excluído do mundo do trabalho e da cultura. Daí a exigência histórica de que a escola, mais necessária para os pobres (já que os ricos fazem a sua integração quase que “naturalmente”, graças ao ambiente familiar e social), se redefina com base em um horizonte cultural mais interativo, incluindo jovens e adultos no exercício de interação social, constituído pelas tecnologias da informação e, consequentemente, pelas novas práticas de escri- ta e leitura.
IHU On-Line – Com o imediatismo da informação, o espaço de tempo para a reflexão sobre os fatos acabou. Quais as consequências disso para a formação da sociedade do futuro?
Muniz Sodré – A reflexão sobre os fatos deman- da uma temporalidade menos acelerada, ou seja, o “tempo adiado”, a que se refere Paul Virilio em vários de seus trabalhos. É o tempo necessário à distância entre sujeito e objeto, que permite a reflexão. E a reflexão é cada vez mais necessária à reinterpretação continuada da democracia. Vale, assim, reforçar a ideia de John Dewey,15 para quem um estado democrático em crise não sugere, como pensa a grande maioria, doses maiores de democracia formal, e sim uma reflexão centrada na ideia de democracia. O que há de especial nesta ênfase é que a democracia deixa de ser vinculada unicamente à política, já que esta última passaria a ser apenas uma das formas democráticas. Para Dewey, a democracia se encontra muito mais no fato e na experiência sociais do que na dimensão política: na medida em que transcende o Estado, configura-se como um modo de vida ou uma ideia/força. Neste sentido, a ideia de democracia está sempre destinada a ser revisitada, reinventada e reinterpretada.
Muito interessante a entrevista,mas como vimos ainda nem todas as pessoas tem acesso a interação mediada pelo computador,ainda encontramos pessoas a margem dessas ferramentas.Taciane M Redin
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